segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

QUINZE POR TRÊS

Depois de muitos anos, enfim, descobri o nome daquela mulher: Dona Jolinda. Descobri, não. Inventei. Achei a foto que ainda guardo comigo e tomei a liberdade de rebatiza-la. Dona Jolinda.

Era dezembro quando nos encontramos. Dezembro de 2012. Estávamos na frente de uma igreja no centro de São Paulo. Chovia fino, a cidade amanhecia de ressaca. No dia anterior, no Japão, o Corinthians havia vencido o Chelsea e conquistado o título mundial. A pauta tinha qualquer coisa a ver com velas para São Jorge, blá-blá-blá de futebol e religião. 

Ajustávamos a câmera quando ela apareceu. Parou diante de nós e ficou em silêncio. Trocamos um bom dia sonolento, sem muita atenção, e ela se pôs a dizer lorotas. É esquizofrênica, diagnosticou o meu colega. 

Era uma senhora de rua. Usava um gorro de lã, um casaco de botões todo esgarçado e um cobertor cinza sobre os ombros. Os pés, no entanto, passavam frio; calçavam chinelos menores, de criança, de modo que os calcanhares se arrastavam pela calçada.  

A mão esquerda servia para apoiar a bengala carcomida. A direita carregava uma sacola azul. Duas, na verdade, de plástico, uma dentro da outra. Era preciso aguentar o peso, porque ali dentro, soube logo depois, ela guardava uma vida inteira. 

Estava "fugida"do albergue público onde havia morado nos últimos meses. 

- Ninguém presta ali dentro, moço. Roubaram até minha dentadura. 

O movimento na igreja era fraco, não havia ninguém comprando velas ou pagando promessas pelo Corinthians -- e isso foi o bastante pra que eu desse mais atenção à velhinha andarilha. 

- Como a senhora se chama?
- Não sei. Acho que até isso também me roubaram.

A verdade poética e triste daquela mulher sem nome nos calou por alguns segundos. 

- E pra onde a senhora vai agora?
- Pra frente, moço. Pra ver onde vai dar. 

Os olhos opacos passearam por nós e pelos equipamentos que trazíamos conosco. Quase até brilharam quando ela reconheceu a marca estampada no microfone. 

- Vocês são da televisão?
- Somos repórteres. 

- E vocês são famosos?
- Longe disso, moça, imagina. 
- Mas são ricos?

Rimos.

- Vocês não têm dinheiro, não, moço?
- Nada, minha senhora.

Quando ensaiávamos um pedido de desculpas e tchau, até mais, muito prazer, ela pousou a sacola sobre o chão e esticou os braços com urgência, como se procurasse alguma coisa ali dentro. Fez sinal que esperássemos. Escarafunchou suas desimportâncias e desembrulhou um punhado de notas amassadas; era sua fortuna secreta, escondida para que também não roubassem. 

- Tenho quinze reais. Toma aqui, dá cinco pra cada um. 

Naquele momento, Dona Jolinda desafiou não apenas o nosso preconceito - mas a matemática: uma existência toda de subtrações e ela ainda não desaprendera a dividir. Se o mundo insistia em se recolher pra não alcança-la, ela estendia as mãos, fazia quinze por três de cabeça.  

- Vocês precisam tomar um café, pelo menos.
- A gente vai, sim, minha senhora. 
- Saco vazio, vocês sabem... 
- Verdade. Não para em pé...

Não aceitamos o dinheiro, claro -- e a Dona Jolinda, resignada, voltou a amassar as notas dentro do tesouro de plástico. Pra que não soasse desfeita nossa, pedi uma foto no lugar dos cinco reais. Ela não disse nada, mas entendi que aceitou quando percebi que, vaidosa, se ajeitava em pose. Apoiou a bengala sobre a sacola e cruzou os braços feito uma santa. Os olhinhos miúdos se voltaram pro chão. Porque não tinha dentes nem motivos, Dona Jolinda não sorriu.

Quando cheguei à redação, não tinha matéria alguma sobre as velas de São Jorge. Não encontramos nenhum corintiano pagando promessas, mas voltei pra casa cheio de fé -- tomado pelo sentimento difuso e piegas de que a humanidade deu certo. 

Não sei se a Dona Jolinda ainda vive, tampouco se conseguiu o milagre de transformar aquela sacola pesada numa cama confortável; se achou um par de sapatos pra aquecer os pezinhos cascudos; se continuou a fazer mágicas aritméticas e multiplicou as garças que planavam na palma daquelas mãos. Tomara que sim. Provável que não.  

De toda forma, sempre que eu vejo a foto, a ternura daquela imagem me deixa engasgado. 
É o olho da rua; ordinário, sublime, visceral. É a nossa estupidez repousando na beleza das pequenas coisas. 

Viva Dona Jolinda, poesia no meio da guerra. 

sábado, 30 de dezembro de 2017

CRÔNICA DE UM HOMEM APAIXONADO

POR GUILHERME FUOCO

Quando é pra ser não tem jeito. 

O cupido vem e dá frechada mesmo! Meu peito até fica parecendo uma tauba. Aquela de tiro, sabe? É “tiro ao Álvaro”, que fala né?

E aconteceu comigo há quase quatro anos. Foi na hora. Ela chegou num dia do nada e entrou em mim como se já tivesse sido minha há anos. Há décadas. Como o amor de Adoniran por Iracema! Conhece a história? Escuta “Iracema” e me fala.

E é companheira, fiel. Tão linda. Pode apagar o fogo, mané, essa é minha, minha saudosa! Mesmo, mesmo. Saudosa como a maloca dos demônios. Mas essa nunca será derrubada pelos homi cas ferramenta. Essa é firme.

Ela é honesta e me ajuda em tudo que preciso.

Outro dia fui jogar bola, né, e ela, adivinhe só, foi comigo! Dorme comigo sempre. Ela não tem vaidade, ela é que é de verdade. Me acolhe e esquenta. Num fim de semana qualquer levei a linda no meu trabalho. Todos adoraram, foi sucesso total. 

Quando eu tô no samba com ela, então... Vish, não param de olhar pra mim! Sem ciúmes, de boa, ela e o samba parecem feitos para viverem juntos. Seria nosso triângulo amoroso? A gente aceita.

Eu engordei, admito. Mas ela me aceita. Ela me quer do jeito que eu tô. Gordo ou magro. 

E a prova do amor aconteceu hoje, às seis da matina. Não foi em Jaçanã, foi no Limão mesmo. Fui tomar banho e esqueci a toalha. Minha noiva dormia e eu não ia acordá-la. Mas, olha só! Quem tava lá? Ela! Ela é gigante! Tamanho G de Guilherme. Ou GG de Guilherme George. Nome que ainda tem mais um G, se eu quiser comer mais. E ela me acompanhará nisso, tenho certeza. Pois bem! Me enxuguei com ela e fui trabalhar sequinho e com a certeza de que não posso ficar nem mais um minuto sem minha bela camiseta dos Demônios da Garoa.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

MANUAL DIDÁTICO DOS AVIÕES

Há quem reze, quem leia, quem ronque. Uns têm pavor, outros, fascinação. Mas, no fundo, são todos iguais.

Voar, pra uns, é um ato de coragem. Pra outros, corriqueiro, tosco, banal. Voar, pra todo mundo, é uma aula de antropologia.

Tudo começa assim: só é permitido reclinar a poltrona DEPOIS que o avião decolar e DEPOIS que os avisos luminosos se apagarem. As recomendações são claras, repetitivas e muito simples. Não custa nada respeita-las. Três centímetros não alteram tanto assim o padrão de (des)conforto ali dentro. Além do mais, ninguém é mais esperto nem merece se beneficiar desse luxo antes dos outros. Mas em todos, absolutamente TODOS os voos do mundo (ou do Brasil?) acontece a mesma coisa: o sujeito reclina antes da hora, vira a cabeça, fecha os olhos e depois finge que não é com ele.

- Senhor.... Senhor? .... Senhor! A poltrona, por favor, volte à posição normal. Vamos decolar.

O cara fica puto. Quando a aeromoça vira as costas, numa demonstração de virilidade e poder, ele reclina de novo.

- Senhor, por gentileza....

Tem outra coisa. O serviço de bordo das companhias aéreas no Brasil é vergonhoso. Miserável. Constrangedor. MAS... quando a aeromoça te pergunta se você quer snack doce OU salgado, qual a dúvida? É um OU outro. Evite responder “os dois” com aquela cara de ódio e arrogância. Se você se sente no direito de pegar o doce E o salgado, beleza, é legítimo ... mas sinta-se também no dever de perguntar com educação sobre essa possibilidade.

Depois, quando o avião pousar, mantenha-se tranquilamente sentado na sua poltrona e espere que... Não, esquece. Essa não vai adiantar. Então, se todo mundo vai levantar mesmo, ainda há esperança e sugestões em relação a comportamentos adjacentes.

Sentar na janelinha, por exemplo, é bacana. São os primeiros assentos escolhidos. Você tem uma visão privilegiada da paisagem, tira um monte de foto, faz stories das nuvens, apoia a cabeça e dorme um pouquinho (bem pouquinho) melhor. MAS... na hora de desembarcar, você tem que ESPERAR o pessoal que sentou no meio e no corredor. Só depois que eles saírem é que chegou sua vez. Combinado?

E antes de tirar sua mala do bagageiro, verifique se HÁ ESPAÇO pra isso. O risco de esbarra-la na cabeça de outro passageiro é grande. Mesmo que ele seja um sujeito igualmente idiota por estar tão apressado em sair quanto você, não é legal machucar o amiguinho.

Por último e mais importante: “ah, tá todo mundo se comportando que nem bicho, mesmo, então foda-se, vou peidar”. Não. Para. Pensa melhor. Tá todo mundo junto, irmão, de mãos dadas nesse projeto incipiente e nem tão promissor chamado sociedade. Tá todo mundo se espremendo enquanto as portas não abrem, o sistema de ventilação já foi desligado, há mais de uma centena de pulmões respirando fundo à espera da liberdade; o pessoal tá impaciente, ansioso, com calor... um peido agora pode provocar uma guerra civil. Um peido agora é covarde, é canalha, é egoísta (quem faz geralmente não sente); um peido agora, por favor, não... 

Putaquipariu. Abram as portas! Cagaram no mundo!!

sábado, 23 de setembro de 2017

SOBRANCELHAS

É uma sexta-feira incomum. 

Deixamos o trabalho, estamos de folga no fim de semana, ambos cheios de vigor, hipnotizados pela miragem da vida pessoal. O mundo, enfim, se descortina diante de nós. 

Quase sempre trabalhamos até mais tarde, quase sempre trabalhamos aos sábados e domingos, quase nunca temos uma noite de sexta-feira assim, a sós, em que se derramam raras e infinitas possibilidades .

Podemos ir ao cinema. Podemos sair pra jantar. Tem aquele rodízio japonês que a gente adora. Aquele italiano novo perto de casa. O bistrô, hmmm, aquela mezzaluna incomparável. Cinema e depois jantar. Jantar e depois cinema.  

De repente, podemos pegar a estrada e encontrar os amigos no interior. Curtir uma praia naquela pousadinha à beira-mar, por que não? Reservar uma cabana nas montanhas... 

Podemos encher a cara de vinho, de poesia, de virtude. Aproveitar a ausência das crianças e acender aquele restinho de baseado escondido há meses na gaveta do criado-mudo. Fazer amor na varanda enquanto o prédio novo ali na frente não fica pronto.  

Podemos tudo. Qualquer coisa. Temos um casamento no dia seguinte, mas e daí? Podemos mudar os planos à mercê dessa liberdade explícita, vadia e generosa.
  
Deixo que ela decida nosso destino desta sexta-feira incomum -- menos por cavalheirismo e mais porque não tenho maturidade pra tomar decisões em momentos assim, de expectativa quase infantil. 

Ela entra no carro. Bate a porta, eufórica, e anuncia a sexta-feira que desenhou pra nós. Que mulher. Depois de tantos anos, ainda é capaz de me surpreender:

- Marquei salão, amor. 
- Oi?
- É aqui pertinho, precisamos correr.
- Qu... Que salão?
- Salão, ué. De beleza. 
- Mas você não foi ao salão anteontem?!
- Pra fazer pé e mão.
- Então!
- Hoje é sombrancelha, amor.  
- Eu não acred..
- PRE-CI-SO fazer minha sombrancelha
- C..
- Não posso ir assim horrorosa ao casamento do seu primo!


Passo o crachá na portaria do estacionamento. Deixamos a empresa. Já penso no trabalho com saudades. 

Não.
Não. Não.
Tudo tem limites.

Salão de beleza? Numa sexta à noite? 
Não foi isso que eu escolhi pra minha vida.

É o momento de me impor, de mostrar que eu não aceito essa ideia em hipótese alguma. Não existe a menor chance de perdermos a noite por causa de uma vaidade egoísta. 

Respiro fundo e escolho as palavras que digam tudo isso de uma forma pacífica. 

- Tá bom. Tudo bem. Vamos.
- Melhor homem do mundo!, ela me beija. 
- Mas olha... tem uma coisa.
- Hum?
- Até meio chato dizer, mas...
- Pode falar.
- É SO-brancelha. SÔ!
- Como assim? O que eu falei?
- SOM-brancelha. Sempre fala.
- Tá. Entendi. 
- SO-brancelha. De sobrolhos. Sobre os olhos. Faz sentido?
- Sim!


Ela me beija, dane-se o português.

- Melhor homem do mundo!
- Hm. Qual é o endereço do salão? 

É um ato de bravura, resiliência, companheirismo. 
Uma prova irrefutável de amor. 
Uma atitude que vai estabelecer um novo patamar na relação.

Dirijo em silêncio, mas inconformado. Ameaço resmungar, me contenho. 

Mas por que as pessoas fazem sobrancelhas? Quem é que repara nesse tipo de coisa? Nunca, nunca olhei pras minhas. Nem pras dela. Nem pras de ninguém. À exceção das sobrancelhas da Frida Kahlo, famosas no carnaval, todas as outras são iguais -- ou, vá lá, quase iguais. 

Quem é que percebe qualquer mudança entre umas e outras? Aliás, como se faz uma sobrancelha? Corta? Passa tinta? Produto químico? Delineador? Como vivem, o que pensam os seres humanos que fazem sobrancelhas?

Não verbalizo, claro. Seria inútil. Provocaria estragos. E, em última instância, qualquer dúvida legítima seria taxada como rabugice e rebatida com outra pergunta: "Você não quer uma mulher bonita ao seu lado?". 

Chegamos ao salão. O maquiador nos recebe com sorriso, abraço, oferece um cappuccino. Logo é a vez da minha mulher. Ela se acomoda numa cadeira de modo que o rosto fique inclinado para este serviço que, se não vai mudar a cotação do dólar, vai decerto causar prejuízos ao nosso orçamento familiar no final do mês. Fico sentado ali perto, feito o melhor homem do mundo, dando um tchauzinho e uma piscadela pelo espelho de vez em quando. 

Abro um livro pra que o tempo passe mais rápido. Leio duas, três páginas. Desisto quando ouço o papo do maquiador. Ele não consegue prestar atenção no jornal "quando aquela moça bonita apresenta". 

- DI-VA. Que sobrancelhas são aquelas?! MA-RA-VI-LHO-SAS!

Peraí. Como assim? 
Estiagem. Atentado. Propina. Míssil. Furacão. Massacre. Terremoto. PMDB. O mundo assim, vítima de tantas tragédias, e ele só consegue prestar atenção naqueles fiozinhos inofensivos e indefesos? 

Bebo o último gole de cappuccino enquanto ele desfila conhecimento sobre as variações de formato, espessura e artificialidade das sobrancelhas. Dizem que elas são a moldura dos olhos, mas acho que são apenas a fronteira da testa. Percebo minha ignorância, encolho-me na poltrona de espera e finjo que estou entretido no livro. Homem feliz, aquele maquiador. "Quando aquela moça bonita apresenta o jornal", ele nem percebe que o Temer ainda é o presidente.   

Depois de, sei lá, uns seis meses, minha mulher se levanta.

- Tá pronto, amor! Foi rapidinho, não?
- Foi. Rapidinho.
- E aí? O que achou?
- Do quê?
- Das sombrancelhas, amor!
- Lindas. Lindas.

Voltamos pra casa. Descasco uma banana, me jogo no sofá e ligo a televisão. Vai começar a mesa-redonda, hora de saber tudo sobre a rodada da Série B. 

Minha noite, outrora promissora, de repente é prosaica e melancólica. Espicho o olho pelo corredor e vejo minha mulher se olhando no espelho do lavabo. 

- Não ficou lindo, amor?

Olhei. Olhei. Olhei.

Não vi diferença alguma, embora eu tenha dito, mais uma vez, lindas, lindas. 

Impossível não perceber, contudo, os olhos que brilhavam logo abaixo das molduras. Foi assim que finalmente encontrei a magia daquela sexta-feira: minha mulher estava feliz com as sombrancelhas novas. E dane-se o português. 









sábado, 16 de setembro de 2017

O SONHO PERSISTE, MALACO

Devia ser o primeiro ano da faculdade, não me lembro com tantos detalhes.
Me lembro, sim, que podíamos escrever qualquer coisa a partir de um verso específico de Carlos Drummond. 

"Já não há mãos dadas no mundo". 

Escrevi sobre um homem sozinho à beira da estrada, à margem da humanidade e sem final feliz. O nome desse homem, escolhi por acaso, era Malaquias -- e apesar da pouca sorte do meu personagem, ele divertiu meus amigos por muito tempo. Malaquias?! Por que não se chamava José? Por que não Jorge, Carlos, Rafael, Antônio, Paulo, Edílson, Guilherme, Alexandre? 

Escolhi Malaquias. 

"Ô, bicho, e o Malagueta?! Você precisa escrever mais sobre ele!!!!", diziam os amigos.

Anos depois, na redação, conheci um Malaquias de verdade. 

O convívio, porém, abreviou nossos nomes. Virou Malaca pra uns, Malaco pra outros -- e dele ganhei apelido em inglês com sotaque caipira: "The Dreamer!". 

Em português, "O Sonhador". Uma piada sobre o meu hábito de invariavelmente voltar da rua entusiasmado com as reportagens que tinha debaixo do braço. Sobre a minha insistência em pedir mais tempo de matéria pro editor; meus argumentos desesperados de que a  gente não podia contar uma história tão bacana em apenas um minuto e meio. 

E sempre que eu abri a porta da ilha em que ele estava trabalhando, foi assim, na redundância de artigos, que o Malaco me recebeu:

- Olha aí o The Dreamer chegando!

Nunca entendi muito bem se ele estava rindo da minha ingenuidade ou se estava exaltando o meu inconformismo, mas qualquer uma das hipóteses me satisfazia. Rir de mim mesmo ou me sentir um romântico eram bons pretextos pra viver em paz. 

Acontece que a vida real se encarregou de cumprir o destino daquele meu anti-herói de mentira.  

O Malaquias de verdade foi enterrado hoje. Morreu à beira da estrada. 

Na madrugada da última sexta, ele saiu do trabalho e engatou a primeira marcha do Fiat 147. Aquela caranga antiga era uma das paixões das quais ele se orgulhava. O "fiatola" tava sendo todo reformado, mas, naquele dia, uma pane seca interrompeu a viagem. O Malaco parou no acostamento e, quando abriu a porta, um caminhão passou. O motorista foi embora sem prestar socorro.  

Já não há mãos dadas no mundo.

Homem de pouca reza, escolhi um banco onde eu me permitisse sentir as dores da morte. Na última vez que falamos, semanas atrás, tentei não demonstrar que os sonhos talvez já não fossem os mesmos. Mas ele riu, deu um tapinha nas minhas costas e se despediu, sempre repetindo os artigos. "Imagina, cara, você é o The Dreamer! Sempre será!!".

Hoje quedamos sós. 
Em toda parte, somos muitos e sós. 

Absorto em todos os clichês que a finitude nos proporciona, li as mensagens de pesar e lágrimas dos amigos. As declarações de amor que ele fez à mulher nos últimos dias da linha do tempo. Vi as fotos da filha pequena, "princesa linda do pai". O "fiatola" brilhando na garagem.

Antes que alguém pudesse me encontrar por ali, olhos marejados e palavra alguma pra dizer em voz alta, me levantei do banco, suspirei em memória do nosso companheiro e voltei a sonhar. 


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ALBORNOZ

10 de junho de 2017


Rodrigo Albornoz.
Pronunciar o teu nome, só percebi agora, é naturalmente conjugar a vida na primeira pessoa do plural.

Nós.
Nada é tão você quanto nós.

Tantos que tivemos o privilégio de te vivermos.
De nos acolhermos no teu coração infinito,
no teu sorriso bonito
no teu codinome "Albormito".

Nós.
Coadjuvantes da tua história.
Contadores de toda memória.
Aflitos e impotentes,
espectadores da tua batalha inglória.

Só que, diante da guerra, você foi paz.
Da finitude, recomeço.
E diante dos dissabores, você foi nossa fé.

Todo amor é saudade, menino-santo.

Rogai, Rodrigo.
Rogai por nós, Rodrigo Albornoz.


quinta-feira, 30 de março de 2017

CASO REAL



A primeira fila foi no xerox.
Quinze minutos.

A segunda fila foi no Detran. Fila da triagem.
Mais quinze.

- Boa tarde. PID, por favor.
- Quê?
- Permissão Internacional para Dirigir.
- Documentos.
- Tudo aqui!
- CNH e CPF, por favor.
- Os dois aqui.
- Comprovante de residência?
- Mas eu liguei no Disque-Detran e..
- A moça disse que o senhor só precisava de CNH e CPF.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- Mas...
- Aquela fila ali, ó.
- Que tem?
- Entra na internet, senhor, e pega uma cópia de qualquer conta que comprove sua residência, .

A terceira fila, então, foi a do acesso à internet.
Trinta minutos.

- Conta de luz, senhor?
- Não. Não tá no meu nome.
- Telefone?
- Telefone. Pode ser.
- Qual operadora?
- TIM.
- TIM sem sistema, senhor.
- Sério?
- Próximo!
- Peraí! Eu PRECISO desse documento!!
- Cartão de crédito?
- Não sei se é seguro usar minha senha do banco aqui.
- Há outra opção, senhor?
- Acho que n...
- Próximo!
- Moça, peraí! Eu PRECISO de uma solução!!
- Qual o banco, senhor?
- It....
- Itaú sem sistema, senhor.
- Como assim?!
- Sinto muito, senhor.
- Mas acho que o problema é a internet de vocês.
- Próximo!

A quarta fila, então, foi pelo telefone. Ligação urgente pro banco.
Mais vinte minutos.

- Gerente, boa tarde. Preciso de um favor.
- Pois não.
- Uma cópia da fatura do cartão de crédito. Preciso comprovar meu endereço.
- Claro!
- Consegue mandar por e-mail?
- Hm. Sistema fora do ar. Não tem previsão, mas assim que voltar eu te mando!

Mais trinta minutos.
Mandou.

A quinta fila foi, de novo, a do acesso à internet.
Mais quinze minutos.

- Voltei.
- Deu certo, senhor?
- Recebi por e-mail. Só imprimir.
- Impressora tá fora de sistema, senhor.
- Hã?!
- Manda imprimir nessa outra.
- Ok.
- Próximo!

A sexta fila foi, de novo, da triagem.
Mais dez minutos.

- Voltei.
- Qual é o seu documento, senhor?
- PID.
- Pitty?
- PID. Permissão Internac...
- Não é aqui, não, senhor.
- Mas a m...
- A moça disse que era essa fila.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- E agora?
- Ali, ó!
- Mas...
- Próóximo!

A sétima fila. Mais dez minutos.

- Boa tarde, moça. Tudo bem?
- Oi.
- PID, por favor.
- Documentos.
- Tudo aqui!
- CNH?
- Na mão.
- Só preciso dela.
- Mas e o CPF?
- Não precisa.
- Mas... Mas... Mas e o comprovante de residência?!
- Não precisa.
- Mas a m...
- A moça ali do outro balcão falou que precisava.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- Moça, eu perdi mais de uma h...

[carimbo]
PUF. PUF, PUF.

- 260 reais. Paga ali naquele setor e volta.
- Dá pra pagar no cartão?
- Costuma dar, mas hoje é só dinheiro.
- Por quê?
- Sistema fora do ar.
- É sério?
- Tem um caixa eletrônico ali no shopping.
- Mas...
- Pró-xi-mô!

Fila no elevador pra descer.
Fila na escada.
Fila no corredor do shopping.

Fila na faixa de pedestre.
Fila no caixa eletrônico.

Fila pra voltar ao Detran.
Fila no elevador pra subir.
Fila na escada.
Fila nos caixas de pagamento.

O segurança me breca diante da porta.

- Pagamento? Hmm. Banco tá fora de sistema.
- Mas vou pagar com dinheiro.
- Sem sistema.
- Mas não era o sistema do cartão?
- Era. Mas agora caiu geral.

Fila de pagamentos.
Fila de funcionários confusos.

Fila. Fila. Fila.
Depois de muitas filas, documento em mãos.
O que poderia demorar poucos minutos demorou muitas horas. Um dia inteiro.

Ao voltar pra casa, a caminho da fila do pão, peguei a fila de carros do engarrafamento.  Pessoas com filas de problemas na cabeça. Ouvi a buzina e o estranhamento entre dois motoristas, um homem e uma mulher que disputavam um pedaço de rua. O bate-boca seguiu até que o sujeito macho pôs fim à briga -- e a última fila do dia me mostrou que o sistema tá realmente fora do ar:

- Ô, sua fila da puta! Vai pilotá fugão!